O setor da construção civil na África está vivenciando um rápido crescimento, impulsionado por uma combinação de desenvolvimento de energia limpa, inovação digital e vastas necessidades de infraestrutura. Mas, embora as oportunidades sejam claras, os desafios são igualmente significativos.
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Shamsher Singh, líder regional para a África na área de energia limpa e transmissão da multinacional Turner & Townsend, ocupa uma posição estratégica em meio à transformação do setor de infraestrutura no continente africano. Em entrevista ao Construction Briefing, o executivo compartilhou insights valiosos sobre os avanços da África em energia sustentável, os desafios estruturais enfrentados e o papel das ferramentas digitais na promoção do crescimento.
Segundo Singh, a indústria da construção africana vive atualmente uma “situação altamente positiva“, com o continente “prestes a assumir a liderança global em áreas-chave nas próximas décadas — especialmente no setor de energia limpa“.
Um dos principais motores do crescimento é a urbanização acelerada. “A rápida urbanização, combinada a investimentos robustos em grandes projetos de infraestrutura e energia, deve impulsionar o setor da construção em mais de 20% até 2030, com uma taxa composta de crescimento anual (CAGR) estimada entre 5% e 7%”, destacou o executivo.
No entanto, o cenário não é isento de obstáculos estruturais. Singh chama a atenção para desafios históricos, como instabilidade política, regulamentações rígidas e volatilidade econômica. “A falta de estabilidade política, a governança inflexível e os entraves regulatórios, somados a moedas voláteis, inflação elevada e déficits orçamentários, resultaram em lacunas persistentes de investimento”, afirmou.
Apesar disso, há uma perspectiva otimista no horizonte. Singh observa que governos africanos estão empenhados em atrair capital internacional, promovendo reformas regulatórias e, ao mesmo tempo, mantendo exigências socioeconômicas estratégicas para investidores e desenvolvedores. “Estamos vendo uma movimentação clara para remover barreiras desnecessárias, criando um ambiente mais propício ao desenvolvimento sustentável”, completou.
Energia limpa: O poder do hidrogênio

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A energia limpa é um dos pilares do crescimento futuro da África, e Shamsher Singh, líder regional de energia limpa e transmissão da Turner & Townsend, enxerga um potencial imenso em todo o continente. “A África é extremamente rica em recursos naturais, especialmente em fontes renováveis como solar, eólica, hidrelétrica e geotérmica”, afirma.
Embora o avanço dessas fontes esteja em ritmo acelerado, Singh acredita que o hidrogênio verde pode representar um divisor de águas, principalmente para indústrias que buscam a descarbonização. “A maioria das nações africanas firmou compromissos climáticos no âmbito do Acordo de Paris, o que demonstra um forte alinhamento regional com as metas globais de redução de emissões de carbono”, observa.
Para que a energia limpa gere benefícios concretos, Singh ressalta a necessidade de uma infraestrutura de rede moderna e robusta. “Apesar dos avanços significativos, grande parte da infraestrutura energética da África ainda é obsoleta ou insuficiente para atender à crescente demanda”, alerta.
Investimentos estruturais já estão em curso. Na África do Sul, por exemplo, há uma expansão relevante das redes elétricas, enquanto outras regiões exploram soluções baseadas em hidrogênio, solar e eólica para diversificar suas matrizes energéticas.
Segundo Singh, embora o futuro energético da África envolva diversas fontes, o hidrogênio verde deve desempenhar um papel central na transição energética do continente. “O setor de hidrogênio verde africano está pronto para crescer, alavancado por seus recursos naturais abundantes e iniciativas estratégicas em cooperação com a comunidade internacional”, diz.
Apesar dos desafios, como viabilidade econômica e limitações de infraestrutura, a criação da Aliança Africana para o Hidrogênio Verde (AGHA) sinaliza um compromisso firme com o desenvolvimento sustentável e uma industrialização verde e inclusiva.
As projeções da Organização do Hidrogênio Verde (GH2) indicam que os países membros da AGHA poderão desenvolver um mercado capaz de consumir até 60 milhões de toneladas de hidrogênio verde equivalente até 2050, o que poderia adicionar entre US$ 66 bilhões e US$ 126 bilhões ao PIB combinado da região — um impacto equivalente a 6% a 12% da produção econômica atual e a criação de até quatro milhões de empregos.
Singh destaca iniciativas estratégicas em andamento, como:
- o lançamento do Atlas do Hidrogênio Verde na África do Sul;
- o programa de hidrogênio da Namíbia, com apoio da Alemanha;
- o portfólio de projetos do Marrocos, focado em amônia verde, aço verde e combustíveis industriais;
- os projetos integrados do Egito, localizados na Zona Econômica do Canal de Suez.
Essas ações, segundo Singh, “posicionam a África como protagonista na economia global do hidrogênio verde, ao criar empregos com emissão zero, aumentar a segurança energética nacional e gerar receitas de exportação alinhadas com metas de zero emissões líquidas”.
Digitalização: fator decisivo na transformação do setor
Outro componente essencial para essa transição é o uso estratégico da tecnologia digital. Para Singh, as ferramentas digitais não são mais opcionais — tornaram-se indispensáveis. “A digitalização está promovendo uma verdadeira revolução, transformando toda a cadeia de valor dos setores de energia limpa e transmissão”, afirma.
A Turner & Townsend, segundo ele, faz uso de “ferramentas digitais de alto nível para converter dados em insights acionáveis, o que permite tomadas de decisão mais precisas, melhoria no desempenho e redução de riscos”. Essas soluções impactam diretamente os resultados dos projetos, permitindo que as equipes monitorem o progresso, antecipem problemas e garantam a qualidade e eficiência na entrega.

Imagem: Turner e Townsend.
Embora os avanços em energia limpa e digitalização tragam perspectivas promissoras, Shamsher Singh também destaca os desafios estruturais e as barreiras culturais que precisam ser superadas. “As ferramentas digitais têm o poder de transformar um bom projeto em um projeto excelente. Mas exigem investimento contínuo — em tecnologia, capacitação de equipes e, principalmente, em mudança cultural. É essencial que os times confiem e utilizem essas soluções no dia a dia, e isso não acontece de forma imediata”, ressalta.
Apesar do entusiasmo com o potencial da transição energética e digital, Singh é direto ao abordar as deficiências críticas de infraestrutura que ainda limitam o progresso. “Em muitos países, o maior desafio ainda é acertar o básico. Não se constrói um futuro digital e de energia limpa com base em energia instável e sistemas de transporte precários”, alerta.
Essas lacunas, no entanto, representam também uma enorme oportunidade para o setor da construção civil. Singh observa que há uma demanda crescente impulsionada por fatores estruturais e demográficos. “Há uma abundância de oportunidades em toda a África — estimuladas não apenas pelo crescimento urbano acelerado e expansão da infraestrutura, mas também pelo aumento populacional previsto para as próximas décadas”, afirma.
Os governos africanos vêm atuando para garantir que os grandes projetos também gerem benefícios sociais duradouros. “A maioria dos países passou a exigir que empreendimentos de grande porte incluam contratação de mão de obra local, investimentos em infraestrutura comunitária e ações de capacitação profissional para equipes locais”, explica.
Um exemplo emblemático é a África do Sul, onde “todo projeto relevante deve destinar pelo menos 30% do orçamento a iniciativas locais”, destaca Singh. Essa abordagem não apenas fortalece as comunidades, mas também contribui para o desenvolvimento de competências nacionais e a sustentabilidade de longo prazo.
Para Singh, a colaboração público-privada é o caminho mais eficaz para alcançar os objetivos estratégicos do continente. “Uma parceria sólida entre governos e iniciativa privada continua sendo fundamental para viabilizar o crescimento sustentável, acelerar a inovação e consolidar uma infraestrutura moderna e resiliente na África”, conclui.
O sucesso das parcerias público-privadas (PPPs) já é evidente no setor energético africano, com diversos programas de energia renovável operando sob modelos como PPP, BOOT (Build-Own-Operate-Transfer, ou Construir, Possuir, Operar e Transferir) e DBFO (Design-Build-Finance-Operate, ou Projetar, Construir, Financiar e Operar). “Esses modelos demonstram o poder da sinergia entre a governança pública e a inovação privada”, destaca Shamsher Singh.
O futuro da construção civil na África: tecnologia, qualificação e sustentabilidade

Ao projetar o futuro do setor, Singh mantém uma visão otimista, mas realista. Segundo ele, o progresso sustentável da construção civil africana dependerá diretamente da inovação contínua, da formação de capital humano e de investimentos estruturais consistentes.
“Energia limpa, digitalização e desenvolvimento de habilidades são os três pilares que definirão o futuro da construção na África”, afirma o executivo. No entanto, ele ressalta que a tecnologia, por si só, não garante o sucesso.
“A construção é, acima de tudo, um negócio de pessoas. Trata-se de fornecer às pessoas as ferramentas, as competências e as oportunidades necessárias para que possam construir um futuro melhor”, conclui.
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